O Horror Cósmico e o Cthulhu Mythos - A importância de Lovecraft e sua Obra

        Howard Phillips Lovecraft, conhecido como H.P. Lovecraft, foi um prolífico escritor dos gêneros ficção científica e horror, nascido no ano de 1890. Tendo passado boa parte de sua infância na mansão de seu avô, ele desenvolveu um grande gosto por livros, o que o levaria a ser um escritor quando adulto. Devido à notas ruins, em especial em matemática, Lovecraft não concluiu seus estudos, o que o afastou de seu sonho de ser um astrônomo (sonho esse que claramente influenciou sua escrita.)

          Inicialmente querendo se dedicar à poesia, H.P. Lovecraft acabou passando sua vida escrevendo textos que ele considerava inicialmente uma "literatura mais pobre" (no caso, textos não grandemente remunerados para revistas pulp) e começou escrevendo com pseudônimos, e várias vezes recusou salário, por esperar trabalhos mais importantes.

          A maior contribuição de Lovecraft para a ficção científica e para a literatura como um todo foi pela criação e desenvolvimento de todo um ramo do terror- o chamado Horror Cósmico. Para isso, ele desenvolveu um "panteão" de criaturas alienígenas,  chamadas de deuses, que habitam no universo ao nosso redor. Além do gênero do Horror Cósmico, ele desenvolveu uma filosofia que estaria intrísecamente ligada ao gênero, o Cosmicismo.


              Segundo essa filosofia, que tem muitas similaridades com niilismo, o ser humano é pequeno e insignificante perante o universo. Somos finitos e a duração da nossa existência (não só individual, mas sim como espécie) é uma parte ínfima dos eons de vida dele. Sabemos extremamente pouco a respeito do universo e de seu funcionamento, bem como sobre os seres gigantes e milenares que o habitam. A ciência, como retratada na obra de Lovecraft, seria uma forma de, um dia, nos entregarmos a ruína da insanidade, quando descobríssemos as respostas para o motivo de nossa existência, sobre tudo que existe no universo, e nossa falta de importância nele (portanto, é uma filosofia que impõe um certo limite à ciência). Na verdade, o simples vislumbre das entidades antigas e mistérios ocultos que aparecem no decorrer da obra de Lovecraft (e posteriormente) seria o suficiente para levar uma pessoa sã à loucura pela falta de compreensão do que vê- e pela crise existencial resultante disso. 

              O principal protagonista das obras de H.P. Lovecraft, e seu principal objeto para evidenciar a filosofia do Cosmicismo em sua obra é o seu já mencionado "panteão" de criaturas que ele próprio em sua grande maioria criou. Coloco "panteão" entre aspas por motivos que mencionarei mais tarde.

 
              A primeira obra do que posteriormente foi chamada Cthulhu Mythos (termo cunhado por August Derleth, amigo e admirador de Lovecraft, e sobre quem falarei mais tarde) foi o conto curto chamado Dagon, lançado em 1917, e sendo o segundo conto curto criado pelo autor. Em Dagon somos apresentados a uma narrativa atmosférica, na qual podemos ver várias características que se tornariam de praxe do Cthulhu Mythos: primeiro, a criatura gigante. Dagon não é apresentado como sendo um Deep One, como ele seria classificado posteriormente, nem nada semelhante, pois essas ideias ainda não haviam sido desenvolvidas, e sua aparência como é descrita também não é tão horrível como a das criaturas que viríamos a conhecer depois; mas a ideia de um ser gigantesco, que apesar de humanoide, é obviamente inumano, e cuja visão evoca insanidade é, como tratei anteriormente, um desmembramento da filosofia Cosmicionista; e segundo, a ideia de que essas criaturas, no caso, Dagon, estariam em nosso mundo desde tempos imemoriáveis, e que aqui elas construíram templos e cidade ciclópicas. Apesar de por muito tempo não ter  recebido grande atenção em comparação ao seu irmão mais novo Cthulhu, Dagon é a gênese do Cthulhu Mythos e tudo que ele representa literária e filosoficamente.
                         
            Mas de fato, a obra que ficou mais conhecida e é a mais importante não só para a obra de Lovecraft mas para o gênero do Horror Cósmico como um todo foi O Chamado de Cthulhu, de 1928.



                 Nessa obra, somos apresentados a muito da mitologia de Lovecraft e como ela funciona dentro de seus contos. É aqui que ocorre a primeira aparição de Cthulhu e também é apresentado o conceito dos Grandes Antigos. Junto com isso, vários temas que falei anteriormente (a filosofia do Cosmicismo em geral, entidades colossais e a insanidade humana perante esses horrores) são aprofundados e intensificados. 

                Com o decorrer dos contos de H.P Lovecraft, o universo e as temáticas introduzidas em Dagon e desenvolvidas em O Chamado de Cthulhu foram expandidas, e novas criaturas foram sendo criadas. Como disse anteriormente, o Cthulhu Mythos tem o enorme "panteão" de seres, embora agora eu possa explicar o porque das aspas.

               Acontece que, apesar da classificação feita pelo próprio Lovecraft, que divide os seres entre Deuses Exteriores, Grandes Antigos e Os Grandes, as tramas reforçam o conceito de que essas definições se limitam em uma visão extremamente mundana, que tenta, assim como ocorre em mitologias como a egípcia e grega, definir esses seres por conceitos humanos. De fato, existe uma certa hierarquia no mundo de Lovecraft, cujo núcleo é o deus exterior Azathoth (que é, dentro da literatura lovecraftiana, a origem do universo), mas a complexidade desses seres impede que, de fato, possa-se definir um panteão sólido com elas. 

                Após a morte de Lovecraft, uma série de autores acabaram por usar do trabalho dele, e assim dar sequência para suas ideias. Foi após a morte dele que a editora Arkham (referência a cidade de Arkham, principal cidade fictícia criada por Lovecraft) foi fundada, republicando vários de seus contos como livros. Foi nessa época que o supra citado August Derleth passou a escrever alguns contos com base no Cthulhu Mythos (termo que o próprio co-criou), no que muitos apreciadores de Lovecraft chamam de "Segundo Estágio". Ele foi responsável pela criação dos Deuses Anciões, e por fazer grandes mudanças à mitologia lovecraftiana.


                     Além da já citada criação dos Deuses Anciões, Derleth acabou por criar uma segunda classificação para os seres já existentes no Cthulhu Mythos, com base nos quatro elementos. Derleth foi muito criticado pelas suas expressões no Cthulhu Mythos, e os Deuses Anciões são considerados não lovecraftianos por adicionarem o conceito de dualidade a sua mitologia. Essa dualidade seria baseada no conceito de bem e mal, no qual os Deuses Anciões seriam seres benevolentes, e os Grandes Antigos a representação do mal, algo que até hoje é criticado pelos leitores mais assíduos do Mythos por fugir de um conceito básico do pensamento de Lovecraft: o Cosmicismo. 
                   Os Grandes Antigos não são seres bons ou maus devido ao fato de que essas definições de certo e errado se baseiam na moralidade humana, e nós, humanos, como já falei anteriormente, seríamos pequenos e com um entendimento extremamente escasso sobre o funcionamento do universo, logo, das ações desses seres. No momento em que Derleth limita a mitologia de Lovecraft dessa forma, ele acaba retirando uma coisa importante, que é o que faz do Horror Cósmico existencialmente apavorante- o universo em que as histórias de Lovecraft se passam é um universo caótico, originado de um ser (Azathoth) cujo apelido é Deus Cego devido à sua falta de consciência. Não há como entender os seres que habitam esse mundo, nem os seres que nele habitam, e isso é um ponto definidor de toda a literatura de H.P. Lovecraft.
                    Por fim, após todo esse texto onde busco explicar a história de Lovecraft, bem como de sua criação, e de toda a bagagem literária e filosófica, afirmo que a importância dele para a ficção científica, o terror e para a literatura em si é colossal, e embora seus preconceitos e alguns de seus pensamentos sejam criticáveis, H.P. Lovecraft é um gênio do gênero que escreveu.

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